Tic-tac
Dia a dia, a areia da ampulheta
Hora a hora, a dor que não é secreta
Minuto a minuto, a vida que não é completa.
E pensar que em apenas 1 segundo
Tudo pode mudar nesse mundo...
No meio da tempestade
O que está à deriva,
O que está sem futuro,
O navio ou o porto seguro?
Tem sonho que bate em cima,
tem idéia que não combina,
tem tarde que anilina,
tem noite que só piscina,
tem sol que cega a menina,
tem lua que ilumina,
tem presença que nos ensina,
tem gente que não se anima,
tem amizade que só com prima,
tem ouro que não vem da mina.
Não há nada
Não há palavras
que valham a pena
que valham o risco
Não há penas
que valham a vida
que valham a morte
Não há pedras
que valham o caminho
que valham a volta
Não há ruas
que não me percam
que não me cruzem
Não há rios
que não me molhem
que não me levem
Não há raízes
que não me saciem
que não me prendam
Há a saudade
e quando há você,
não há palavras.
Se há
Por traz do olhar uma criança triste
Fazê-la feliz com o poder da sedução
Dar de cara com um samurai espada em riste
Faze-lo se entregar por uma canção
E saber que a ainda mais existe.
Se há,
Nunca revelaste a verdade
Mas também nunca mentistes
E eu não quis acreditar nem por piedade
Que vidas sejam tranqüilos rios correntes
Ou que o amanhecer seja o avesso do fim da tarde.
Se há,
Sentimentos mais estão do que são
Desfilando fantasias pelas esquinas da cidade
Sabendo que o horizonte não é só da aviação
Mas é de quem tem a necessidade
De olhar com olhos de libertação.
Tantas não escrevi
tantas quantas não li
e o que escrevi
pros seus olhos, pra ti
e não quis a palavra
quis o olhar
Mas e se o meu olhar
não pagar a promessa
que nunca te fiz
e você nunca esqueceu?
O coração pelos olhos
o gozo pela boca
o fim pela idéia
do mundo quadrado
Hoje a saudade parte
Pr'uma viagem sem volta ao meu coração
O passado marca um encontro com o futuro
O presente comparecerá?
Ou será que faltará?
Depois da cidade, a arte
Ruma viagem aposta de uma ilusão
O surdo acerta o seu passo com o escuro
O samba renascerá?
Ou bamba não rimará?
Antes que não pude dar-te
Numa viagem resposta do meu violão
O absurdo aceita o compasso que procuro
O próximo que virá?
Ou a luz se apagará?
E ainda há mais uma questão
(na verdade um refrão)
A palavra está mas a ausência não
Se somos iguais, de quem é a ilusão?
Estou saindo de viagem
Estou sorrindo
Mas, sim, meus sentidos estão certos
Estão abertos
Já sabem ver uma miragem
Sem me enganar
(Daqui do meu ponto de vista),
do começo ao fim deste rosário
a diferença está nas minhas costas
e, agora, tanto faz, (camelo ou dromedário)
Olho pra frente, pro futuro
Pra luz, e me vejo cego também
E, vendo com os meus desejos,
Vejo essa luz aquecendo os corações solitários
Cegando os olhos da razão
E lhes dando a visão do amor
Da flor que mora fora
do
tempo
Quantos podem sentir minhas lágrimas?
Quantas lágrimas podem me sentir?
E quantas interrogações podem me traduzir?
Olhares
Olhares pra mim me emociona
Me emociona, me ensina
Mostra faces até então ocultas do amor
De ser flor, do ser flor, de se abrir
De sorrir, de apenas ser, agora
Somente. Semente.
Um barco
Com luzes brancas e verdes
E o porto que se aproxima
O porto que desafia
O quase azul que tanto tememos
Sem saber que a luz da lua
Pode estar guiando esta rota
Não restariam piratas
Se todos nós decifrássemos
A tocha que ilumina e queima
Mas, acima de tudo, não podemos deixar de vê-los
Os caminhos que a lua ilumina
Não são os únicos nestes vales e mares
O novo sempre virá
O mais novo sempre virá
Do primeiro, a consciência
Do seguinte, o sentimento
E os longos e negros cabelos
Se atam (até quando?) a um
tanto de escuridão Irradiada por esse vermelho que vem da alma de quem ama.
Só
O um
O outro
O saber
O que saber
O que um pode
O que o outro pode
O que um pode o outro pode saber ?
Poucas palavras
Porém presas num labirinto
Poucas pessoas
Apesar de separadas pelo vento
Muitos amores
Mas ainda mais sentidos
E quem me perguntou sobre a saudade
Já não está nos meus braços
Presa a estes e a outros laços.
"e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."
Guimarães Rosa
No centro do meu país, das minhas nascentes brotam desejos e saudades que não comportam dicionários, cachoeiras, que ainda estão por serem escritas, movem turbinas geradoras de energia, ganham a velocidade das idéias, querem te molhar, encharcar, inundar, banhar, com ondas e espumas e marés cheias e marés vazantes, pra subir de novo.
E ao mesmo tempo, no meio de mim, gêiseres da alma falam da urgência da vida, da pele, dos calores, das possibilidades, vapores criam nuvens de formas que encantam e hipnotizam e deságuam nas suas plantações,
e,
eu, semente, broto, caule, folhas e flores - por você.
Adoro quando escrevo com uma caneta Bic até a tinta acabar...
E quando a calça jeans desbota até ficar quase branca e começa a desmanchar...
A sensação, emoção, do encontro do que é com o que pode ser.
E assim ao encontrar você,
como um encaixe,
o pingo no i
De ir me realizando,
ir rimando,
ritmando com o coração
E a vontade, o desejo de ir,
de ir mais adiante,
ir mar adentro
Sorrir maçãs,
sentir maravilhas,
reluzir
mágicas, e ver-te em tudo.
Já sei, provei:
Intuição guiou pro certo,
Quando perto, peguei na sua mão.
Dali, um pulo no tempo,
O querer de antes, de ontem pro amanhã,
Da
ribanceira pro rio do meio, sem freio...
As respostas sem perguntas
Os silêncios sem idéias
Os desejos sem receios
Os recheios sem culpas
Os corpos sem roupas
Os sorrisos sem vergonhas
Os gozos sem fins
Os recomeços sem cansaços
Os mistérios sem faltas
O encontro comigo em você
O
reencontro com você em mim!
No presente, não pressinto, sinto!
O presente, nem assado, nem escuro,
nem faltando uma letra,
trocando uma rima.
Te olhando de cima,
fazendo uma cena,
minando da lavra,
assoprando palavra.
O fogo de dentro faz chover por todos os meus sentidos.
O amor que sinto traz querer por todos os seus lados.
O encanto,
o êxtase em cada canto,
e a vontade cresce de um tanto!
O amor me canta nas palavras-lágrimas de alegria.
O prazer me encanta no suor-melodia dos gozos.
Mãos, corpos e tudo que somos, dados, transformados, amados.
E quando senti, entendi,
A porta tinha passado por nós,
Daí em diante, em frente,
Os verbos transitam em mim,
A vida me sonha,
As emoções me sentem
Como livros me folheiam,
Poesias me rimam,
Pontes que me atravessam,
Ligando, unindo ser e sentir,
Estar e sorrir.
Você
e eu.
Vocêemmim
Você’m’im
Você em mim
o desejar
a pensar
e falar.
Me ocorre,
Enquanto o tempo corre,
Se a todo instante a gente morre,
Em cada novidade renasço,
Invento palavra, me jogo no seu abraço
E mais novo, de novo, me faço.
O mundo todo faz parte,
A lua cheia, saturno e marte,
Amar é a grande arte.
Os signos olham da janela,
Sentimentos pulam da tela,
Dias passando e eu querendo ela.
Escrever não mata o desejo,
Fico sem rima e sem beijo,
Quer
dizer, o avesso de quando te vejo.
Quando escrevo, escrevo pra mim,
e sei que você vai ler,
pois é pra você que escrevo.
escrevo pra mim pra você escrevo.
escrevo pra você pra mim escrevo.
escrevo você em mim escrevo.
Hoje, é diário, não é literatura, é enxurrada, é insurreição da alma.
Hoje, eu não estou certo, céu cinza, galhos nas margens, águas barrentas.
Hoje, um travo na garganta, um tropeço, um arranhão na calma.
Hoje, não tem amanhã, só fúria, pergunta sem resposta.
Hoje, chute em porta de armário, remédio não cura.
Hoje, tudo opaco, desvio na estrada, murro na faca.
Hoje, diferente, só com você por perto...
Ontem, o futuro que já era, o sonho que não espera.
Ontem, o caminho era de casa, as lágrimas não eram minhas.
Ontem, o meu, a minha, a fechadura sem chave.
Amanhã, o acaso virará páginas, o sol brilhará certezas.
Amanhã, amanhecerá a semente que se guardou na fruta.
Ontem, hoje não existia.
Hoje, só existe hoje.
Amanhã, hoje não existirá.
uma, um, uma
a mesa não existe, existe uma mesa.
o amor não existe, existe um amor.
a paixão não existe, existe uma paixão.
o tesão não existe, existe um tesão.
a mulher não existe, existe uma.
Rima
Rema
Rumo
Mira
Maré
Mora
Amor
Sou igual e sou outro
Sou o tal e o oposto
Gozo
de sal e suor no rosto
Amor que transforma
Faz entender que a “horinha de descuido”
está no olhar de quem vê.
Me transformo, transcrio, transcendo
No dia-a-dia
No amor que me faz feliz, que me ama,
Este
amor que se delicia em nós.
A lua é quase cheia,
recheia a noite seca
e o reflexo corre junto a mim,
eu, espelho-lago,
você
em mim profundo.
Em mim, a lua é sua
Minha lua em você casa
Meu nexo é solar
Nosso sexo, nossa dança
outro
mundo.
Sorrir
Pelos dias, pelas horas
Pelas trilhas que ensinam guiar
Continuar
Com a correnteza e os remos
Com a certeza do encontro com o (a)mar
Querer
Mais concreto, mais perto
Mais direto a tudo que há!
Do mistério, falar ou não falar
tanto faz, meu amor
tudo
faz meu amor.
Artes divinatórias...
Do passado que quer ser futuro?
Do futuro que quer o presente?
Ou ainda do passado que o presente se quer?
Arte
ou parte
da terra
ou de marte
na serra
ou no mar
(te
amo não rima, não prima, mas, em cima!, diz o que é)
De mãos dadas,
o tempo e o novo,
inquietação, arde, urgente,
a
gente.
Um branco, eu não-vazio, realizado
Um traço, você, espelho-rio, deságuo
Um ponto, nós, reencontro-gozo, exclama.
Amor que soa, corpos cheios, musicados
Meu desejo recria os sentidos
Cinco?
Seis, sete e mais te quero.
Sempre acima do mês e do dia
o desejo é mar e também guia
um barco dança
no universo da boca
astro, estrela e língua
tudo
no seu lugar: eu na sua.
O que a vida pede,
o movimento possível e o impossível,
a fase de muda e as marcas na pele,
...por tantos lados corre o pensamento.
Retido nas retinas,
livre pelas lentes,
feliz dos contatos.
Pra cada olho uma lente, os olhos do mundo!
Um ensaio que se pensa,
uma
tese, uma cena de cinema!
Te quero
nas formas, beleza e encaixe,
no corpo, quente e macio,
no desejo, cheio e meio, começo e fim.
Muralhas de páginas, torres de letras,
barricadas de palavras.
Fortalezas e trincheiras.
Furar o cerco das linhas pontilhadas,
andar na corda bamba de folhas em branco.
No desassossego do emaranhado em mim, não, capim não cresce.
Fruta e semente de raiz, isso sim, de-vez,
madura e verde, é o caso e ocaso dos tempos,
das sucessões por dentro das fumaças, névoas.
Estação vai, estação vem, e virá pelas janelas e molduras do vazio e do desejo,
fantasia
e falta de.
O fim
tem não
tem sim
em si
O não
tem fim
tem sim
em si
O sim
tem não
tem fim
em si
O em si
tem sim
tem não
fim.
O que eu sinto por você,
querer o seu sim,
tem fim não.
Minha leitora, mergulho de alma
que me tem no abrigo do laço
diz em olhares coisa infinita
alvo da minha mira
quem encontrou,
porque procura
encontros, toda hora.
Ambulantes na linha vermelha
cinzas e pretos te enfeiam
morros, favelas, braços abertos
batuque, sotaque, boca aberta
que fala de nada como um motor pendurado (enforcado na árvore!).
Vidro fumê, e a porta, pra quê?
Urso de pelúcia no varal, casas sem quintal.
Lixo, entulho e sucata,
cd pirata e o charme da mulata.
Repente grotesco e sem rima
para um Rio que não se vê de cima.
Duvido da palavra
quase todo coletivo é Real
Qual o registro desse sonho?
Não quero não
não quero senão
só o total
todo o seu sal
sonho
de postal.
Em cima de um mar, por dentro
quero tanto um par: você.
uma forma presente e saudade
desejo e memória.
Por um instante,
esse constante
pra sempre,
seu
amante.
Palavra em falta
pra uma alta, bela.
Delírio seco
chovem palavras
Direto da corda bamba,
da capital de mim,
notícias...
etc. e tal
todas as roupas no varal
notícias no jornal
frio que não é normal
pá de cal
pá de lavra
janela de abrir
palavra de sair
pra quê a trava?
Dentro somos sós
mais uns nós
e
a palavra-relação.
um rastro no céu
poesia sem papel
seu olhar, um mel.
O telefone não tocou na hora certa. O ser, o outro ser, estava lá. Rompeu-se a guia! A concha em busca do equilíbrio preferiu se fechar e ser em linha reta, mas quem pode recriminar a escolha? Seguir o curso do improvável, do estranho, romper vínculos não está na pauta. E é menos difícil abdicar de picos de energia do que da média, da constância, do certo.
Certo?
Em todo caso, atravessado pela estrutura da linguagem, tento apreender o porquê de quando o ser entra em crise, a palavra salva-vidas. Paixão e despaixão, quando a dor e o além-da-dor, o prazer, espetam e fazem jorrar as tentativas de in-dizer, de dizer o indizível. É a estrutura que balança querendo cair em si. Ou cair-si, pois aí não há dois, não há deus, só adeus ao que já passou. Não-ser em um caso, e no outro, ser-tão, ser-somente, ser-tudo.
Deuses?
Batucar as letras, ritmar as sílabas, apitar as palavras e brecar as frases. Assim se faria a poesia que não tem endereço, só destino. Haverá entrega? Escrever é a entrega! Penso... Mas se o real é claramente o não-verbo, em que me ajuda este esforço de palavrear? Clarear a realidade, redizer, redefinir, recriar as lembranças? O que resta após o ato da escrita? Resta o real?
Resta a exclamação, presente em tudo que me vem de você! Em pé, em riste, em cima de um ponto que concentra tudo e me carrega. Eu sou a exclamação!
E se você recebesse estas palavras sopradas, deixadas, quem sabe, no alto da torre, se transformaria em uma interrogação? E depois de lê-las, queimaria as páginas no fogo do prazer que fomos para que não restasse nada além das cinzas incompreensíveis do que somos?
E se tudo não passar de uma tentativa vã de sedução? Ou ainda, ao contrario, será que não sou eu o bombeiro, que, me dizem, na infância desejei ser, tentando apagar a fogueira, jorrando?
Prólogo
Onde somos apresentados ao encontro do fim (fim?) com o começo.
As recomendações eram expressas: não ande em carro vermelho nem viaje de avião aos sábados! No primeiro momento, ok, apesar de não conhecer ninguém que tivesse carro de tal cor. E, afinal de contas, sábado não é mesmo um bom dia para viajar. Ou se viaja na sexta, ou no domingo, na segunda... Mas, sabe como é... o tempo vai passando - será que viajei alguma vez em um sábado? Agora, carro vermelho, eu esqueci completamente do assunto.
E quando ela subiu as escadas do hotel com sua linda leveza, como saber de que cor era o carro? E quem disse que quando entrei no carrinho prestei atenção na cor. Só tinha olhos pra ela, pras pernas, pro cabelos, pro vestido, pra boca, pros joelhos, pros pés. Hoje, é que - quem mesmo me fez as recomendações? - sim, o carro é vermelho...
E, hoje, me pergunto para onde foi o que não fomos? Os passeios de mãos dadas, as comidas que não preparei, as brincadeiras que não se fizeram? Viagem adiada é viagem perdida.
O salão parou de fazer sentido, o que se falava calou - o que se falava? - a pequena notável fez uma entrada triunfal para meus olhos. Não sei se fui o único, mas com o resto do mundo a indiferença foi recíproca. Ainda seis meses até os corpos sem roupas se abrirem em flor. Até o dia em que beijos e línguas foram tudo, com olhares extasiados. E mais seis para que o sonho de ser Dona Flor se desmanchasse em mal me quer quando o Teodoro da história descobriu que não era Vadinho um fantasma.
- Agora acabou, adeus.
Três palavras, dezessete letras. Fim.
- Adeus.
Despeço-me do fantasma que não fui, da viagem que não fiz e do carro vermelho que não me levou.
E no seu fim, eu, outro, o mesmo, diferente.
Cantos: quando tomamos conhecimento das cores e formas e sons e cheiros da memória que deseja.
A diferença entre o ser encantador, com seus mistérios, e o desencanto do resto do mundo pula, salta aos olhos e ao coração.
O bracelete de capim dourado estava lá a sinalizar o anel de Moebius, o mistério que faz daquela mocinha uma mulher de surpresa, desejo e brilho.
Não existem outros, o bracelete dourado na pele branca, na carne dura, no arrepio das penugens, guarda magia, atiça os meus sentidos. Concentra, resume a energia que não se contém. Trança de fios da natureza colhidos na lua nova que brilham como o sol daquela pessoa inclassificável, implausível e tão real.
Se somos ensinados a desejar, quando, onde e como aprendi a desejar aquele tanto de infinito que se espreme em um corpo de justo tamanho?
Não chovia. Tocou o telefone. Comecei a suar. Comecei a chover emoção. É claro que era ela. Viva, séria, sóbria, equilibrada, sofrida, sentida, atenta ao que eu dizia, quero crer.
Consegui respirar. Quero mais!
Os domingos não serão mais os mesmos. Já foram outros, já foram deliciosos em quartos de hotel, em camas de sensações, em lençóis de suor, em energias infindáveis, em alegrias gritadas, em totais, em completos, em cheios, em tudo.
Levei minha esperança pra passear.
Vi saias, vi saltos, vi botas entre fumaças e poses de cinema.
Vi sorrisos, vi olhares, vi sapatos, vi sandálias. Vi altas, vi baixas, vi lisas, vi crespas.
Vi uns, vi umas, vi outros, vi as mesmas.
Vi sessentas, vi setentas, vi noventas.
Vi silhuetas, vi sombras, vi flashes.
Vi ombros, vi peitos, vi toraxes.
Vi chanéis, vi chapéus, vi cachecóis.
Vi rendas, vi rosas, vi lendas. Vi elegâncias, vi
distâncias.
Vi então, vi senão, vi o quão, em um cenário "tão moderno quanto o modelo
do meu terno".
Esperei, só, tão.
Desejei, são.
E o que estarei fazendo aqui? Cheguei tarde? Cheguei cedo? Ou não há tempo pro que passou?
Vi que hei, vi que sei.
Em tudo vi nada.
Mudo.
A ausência faz com que tudo remeta à falta.
Toda presença tem a marca do que não está.
Um caqui maduro, macio, que se oferece às minhas mãos, olhos, boca. E você não está...
Ele se desmancha com pouca força, só jeito, lambuzando meus dedos... Cadê você?
Escorre o suco doce e grosso com que meus lábios e língua se deliciam...
Nesse momento, nada me incomoda, o caldo que escorre pelos cantos da boca, os dedos coloridos.
Só que a falta ainda está lá, mesmo quando não está
mais o caqui.
Mapeamento: quando a geografia se desfaz.
Pra começar todo dia, avaliar o vento, hastear as bandeiras.
Ao ir às ruas, empunhar com galhardia o estandarte que guia meu bando de eus.
Ao fim do dia, atualizar a placa com a soma das jornadas sem seu ser – matéria - em mim. Ou melhor, não é soma, é subtração.
Menos 90, menos 91, menos 92...
Recorde!
E não há como não recordar. Ainda dói.
No meio da praça há uma linda criança de cachinhos felizes e sorriso loiro. No
meio do meu coração há uma mulher linda de olhos curiosos, que tem
dentro de si uma praça com uma criança linda de cachinhos loiros e sorriso
feliz.
O que olharia a criança feliz?
Quem me dera ser o olho por trás da câmera na
fotografia da linda mulher com olhar de curiosidade infantil que tem
dentro de si uma linda criança de cachinhos e olhos curiosos.
As portas giram no saguão do hotel onde a vi pela primeira vez.
Giram como sacerdotes Sufis fazendo contato.
Como cilindros budistas mantidos em movimento para que as orações inscritas se façam continuamente.
E continuamente espero a sua entrada por estes portais das outras dimensões.
Que continuam girando e me trazendo, da dimensão do tempo, a dimensão do meu desejo constante, a dimensão do seu corpo concreto.
Porque o que não me sai é sua respiração, ofegante,
seu soluço de corpo inteiro entregue ao prazer, suas contrações na minha alma.
De volta à cidade-parque, para morar nessa saudade, passear e sonhar acordado
com uma voz: ei, mocinho...
Quando vai acontecer?
Como vai acontecer?
O que vai acontecer?
Que fronteiras são essas que nos separam e me colam às recordações grudadas como um mapa na pele?
É possível construir um muro para impedir a existência desse desejo de respirarmos, suspirarmos, ofegarmos juntos?
Quantas avenidas, placas, letras, números sustentam as barricadas destinadas a ruir frente a apenas um olhar, um chamado, um toque, um cheiro?
Um círculo de giz brasiliense, goiano, caucasiano
não pode com o dia que chegará e fará você me encontrar ainda na sua.
De nada
Se de tudo, nada
Se de noite, silêncio
Se de você, ausência
Se nada mais que um “obrigado”
Continuo sangrando.
Se me mostro, não vejo
Se me dou, não recebo
Se me entendo, não explica
Se não vejo sinal algum
Continuo secando
Se te espero, até quando
Se te atrapalho, porquê
Se te incomodo, ignoro
Se até quando te emociono vira as costas
Continuo minguando.
Mantra, repente, rima livre
Tanta semente brotaria
Poesia, prosa, laço de fita
Planta, tronco floraria
Sorrindo, ou dormindo séria,
Te quero tanto,
Eu tenho em meu quarto
um armário cheio de esperança.
Quem vem lá alegrar a vida?
Quem tem lá essa potência?
Quem tem o dom de alterar minha matéria?
Só você,
Qual a mágica dessa mágica?
Qual o mistério desse mistério?
E tanto, e direto na artéria?
É você em mim,
Um dia vai chegar
Um dia em que respirar
Será sem esforço
Como cochilar depois do almoço
Hoje, você tem que navegar
Sozinha, pelos mares, e eu, afogar
Perder o ar e a esperança
Cantar e esuqecer a criança
Mas, quando esse dia vier
Um dia em que viver
Será quente como um abraço
Amar será fácil como desfazer um laço.
A espera e a esperança
O tempo e o coração
A flor e a raiz
Regar o tempo
Brotar da memória
Pétalas coradas
E desejos sonhados.
Ontem, quase senti
sua pele na minha boca
sua humidade na minha mão
suas coxas nas minhas
seu gemido nos meus ouvidos
sua língua na minha
suas mãos nas minhas costas
seu suor se misturando ao meu
meu corpo se fundindo ao seu
meu desejo penetrando no céu.
Ontem, quase,
Quando tudo?
Eu quero a esperança
Como quero você
Mas ela começa a me virar as costas
Como você.
Agora, não é hora
Esperava que fosse
Quero que seja
E pode ser que a conjugação se torne queria
Mas aí você retorna
Com a rima imperfeita,
E eu suspiro a esperança
Que me enche o peito
E depois, me esvazia inteiro.
Só me acorde, paixão,
Quando você chegar pra ficar.
Vou sonhar outros sonhos
Só apareça, amor,
Quando for pra me amar.
Vou desaparecer até lá.
Só me assalte, tesão
Quando quiser ser meu alvo
Vou guardar no cofre meu arco.
Seguir em frente significa
O tempo não para, separa
Até o próximo encontro
Que pode vir nos corpos conhecidos
Ou reconhecidos em corpos outros
Seguir em frente é significar.
Quero sua sinceridade
Sua transparência
Sua franqueza
Quero sua palavra
Seu silêncio
Seu gesto
Quero seu hálito
Seu tato
Seu gosto
Quero seu desejo.
A travessia
Do que fui
Ao que serei
De quem me tem
A quem me terá.
Pronto
Morte, velório, luto
Que não se mede
Nem em tempo nem espaço
Um vazio do tamanho do mundo
Um pouquinho maior
De modo que não se preencha
Nem por hipótese.
Fazer as malas
Juntar os presentes
Que você não colheu
E queimar na fogueira
Todas as cores, cinzas
Todos os amores, fumaça
Todas as dores, chamas
Partir
Acender o fogo
Com o combustível do passado
Papéis, tecidos, comidas
Lembranças, não...
Oferecer ao vento
Os laços, as flores
As intenções, as ações
O porvir, os abraços falsos
Os sorrisos fingidos
A atenção interesseira
O egoísmo estampado.
Pode me procurar quando precisar,
Quando quiser um favor,
Quando doer a consciência,
Quando estiver bêbada,
Quando se sentir só
Porque um dia
Eu não vou mais estar aqui.
Você ainda não me entendeu.
Hoje, eu te entendi.
Sigo com as flores
os amores
as dores
Fique com a omissão
a mentira
a covardia
Sigo com a delicadez
a consciência tranquila
a leveza da alma
Fique com os clichês
as frases feitas
o auto engano
Sigo leal
sincero
íntegro
Sigo.
Fique.
Não tem mais
Acordar todo dia pra me fazer pra você
Cuidar das flores, pétala por pétala
Para que te homenageiem
Mesmo na sua ausência.
Não tem mais
Acreditar todas as vezes nas suas promessas
A sua comida preferida, pronta
A sua bebida preferida, gelada
A fruta mais desfrutável
Mesmo na sua ausência.
Não tem mais
Marcar as poesias pra ler pra você
Presentes enlaçados te esperando
Cama arrumada pra você desarrumar
O elogio mais inesperado
Mesmo na sua ausência.
Inventário
Invento que um dia após o outro, você desfila pro meu olhar, pro meu prazer, da sala pro quarto, do quarto pro banheiro, do banheiro pra cama, da cama pra cozinha, da cozinha pra varanda, da varanda pro meu colo, do meu colo pro meu prazer, em todos os lugares!
No meu diário de invenção, tudo recomeça, tudo se completa, tudo se faz, tudo se refaz, tudo me apraz.
Do fim do dia ao começo do delírio.
Seu jeito,
sujeito,
sem jeito,
me diz
i don’t think so...
e eu,
sujeito
devoto do seu jeito
sujeito ao mau jeito,
espreito,
perplexo.
O não blues
Mais um ano que passa
Mais uma ação de graça
Mais uma criança que rasteja aos meus pés
Com um gesto cansado
Me pedindo um trocado
Estende a mão, pra quê?
Pra ouvir um não.
Um dia ainda te beijo,
um dia ainda te vejo nos meus braços.
Nesse dia vou pisar descalço
no chão do meu coração.
O reino do amor não tem porta
a gente está dentro ou está fora
atravessa mar, rio e deserto
e não encontra jeito de ir embora
E nem desejo de sair,
sim de ir,
de ir parindo
de rir indo
de parir rindo
Mas esse reino tem sonhos
e o coração não bate pra trás
não adianta ter medo
é tornar a sonhar
quando um sonho se desfaz.
Abaixo dos ídolos concretos
nosso namoro no último vagão
resgata o que mais não há,
mas quem diria que haveria?
Acende o que não mais se ouve,
mas quem diria que se ouviria?
Outro dia, eu não saberia
Te dizer o que ia pelo meu coração
Tudo que queria era seu olhar, mas ele não.
Algum dia eu descobriria um caminho
que passasse pela razão
e ainda faltaria para explicar
o que quereria esta canção.
Opor-me,
como poderia?
O sol, o pôr.
Ao sol, opor-me.
Ao sol, antepor o me.
Me sol.
Me soltaria.
Como poderia?
Um pouco mais que sorte
Morrer no meio da vida
Ou viver no meio da morte
Estar no meio do corte
Que se abre no meu peito
Quando não sei o que é direito
Se não há amor ou se não tenho jeito.
E novamente vinha você cavalgando seu estilo, mais real do que nunca, mas nunca mais uma imagem realizou tanto. A sua imagem e a minha realidade se realizavam, e entre as duas, eu.
E tudo era tanto, e tanta diferença você fazia, e tão diferente eu me fiz.
Temo, assim mudado, ficar mudo.
Madrugada. Você entregue à inconsciência, repousa serena, tranquila, displicentemente coberta pelo lençol que não faz questão de te abraçar.
Pequenas gotas de amor descem pelo meu rosto e não fosse este porém, desapareceriam junto aos pingos da chuva que tentam te alcançar mas esbarram no transparente da janela.
No aparente repouso dessa cena, meu coração faz um escândalo, mas minha voz silencia, a palavra não se mostra, a rima não se anuncia
Eu me joguei vez após vez
imaginei-me domando a correnteza
e sendo jogado pra fora dela.
Quis pular para o seu leito,
invadir terras santas
que me tragavam...
Recuei, reencontrado, assustado;
esperei, acuado.
Te encontrava perdida,
não sabia para onde ir e não ia;
estendia a mão e não te tocava;
não te via e você chorava;
e chorei por que te vi.
Quis recuar, recuei
com esperança do refluxo
mas desde já, vã.
Refeito, percebendo o vazio, te amando, desisti.
Da esperança e do desespero, bem entendido.
Veio o susto!
As correntezas se cruzaram!!!
Formaram córregos, cachoeiras, véus d’água.
Eu me joguei vez após vez
Uma brincadeira
de escrever num colchão/vida
uma mania de ser
me sol re sol vida
do jeito que for
desde que seja já
mesmo que o inverso daquela canção
sempre repita o ão de são
o santo antônio, o ir de vir
rimar o ritmo com a poesia
que ia, que vinha, que vai
qual e tal.
Cravo meu olhar no seu peito
e vejo derramar um leito
de um rio de leite
que, lento,
me alimenta
me esquenta
me espanta e me afaga
pra depois me afogar.
Por baixo dos pés, o sapato
por baixo, a sola
e o salto que me consola
Por baixo do salto
o lugar que não piso
onde não pouso
Para mim quando penso
pra você quando falo
mas, e agora, quando calo?
Da cabeça aos pés
o tanto que sou
mesmo que lá fora faça frio
ou quando você me faz febril
Uma charada
Da pele o salto
da poesia, o mais alto
refrão de todo dia
E todo dia eu rimaria
contaria uma história
com graça e melodia
pra
adivinha quem?
A calma
quando não preciso olhar pra lua
pra saber que ela é cheia
A alma
quando desfruto de uma paixão
me
dizendo que não é meia
Talvez inteiro
talvez faltando o coração
talvez faltando uma canção pra me ninar
E no canto da saudade
uma peça importante
uma paixão e um instante
um
sorriso de amante